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A trajetória da identidade assexual do século XIX até as comunidades virtuais

A assexualidade como comunidade dentro das definições que conhecemos hoje só foi surgir ao longo dos anos 1990 e 2000. Recente, né? Mas engana-se que ela seja tão novinha assim: longo da história, o termo já aparecia em documentos, estudos e atrelado a movimentos sociais desde o século XIX. Ou seja, a comunidade assexual surgiu só recentemente, mas a construção da história ace que levou a ela começou há muito mais tempo.  

Antes de qualquer coisa, acho importante frisar que este texto é majoritariamente centrado na história da assexualidade sob uma perspectiva ocidental. Mas isso não significa que em países e culturas orientais não existam diferentes trajetórias da assexualidade e/ou outros termos, além do termo assexual, que definam vivências e movimentos semelhantes. Afinal, continuamos todos sendo seres humanos rodeados por uma diversidade sexual gigantesca.

Quer ver um exemplo? Durante a dinastia Qing, na China, existiu a The Golden Orchid Society(A Sociedade da Orquídea Dourada), que durou aproximadamente 300 anos (entre 1644 e 1949) e era uma organização de mulheres que viviam em solidariedade, contra o casamento heterossexual. Algumas dessas mulheres eram heterossexuais e evitavam casamentos por razões não relacionadas a suas sexualidades, porém, a maioria delas eram sáficas ou assexuais. E a Golden Orchid Society era onde conseguiam viver suas sexualidades em paz (na medida do possível). Elas se “autopenteavam”, arrumando seus cabelos no estilo utilizado pelas mulheres casadas, e inclusive realizavam cerimônias para comemorar suas decisões de se absterem do casamento. 

Assexualidade no Feminismo

Assim como na Golden Orchid Society, no século XX a assexualidade também estava inserida nos movimentos feministas (especialmente no feminismo radical). Porém, isso não significa que o termo assexual era utilizado de uma forma positiva e muito menos na mesma definição atual. 

Para se ter uma ideia, em seu artigo denominado Women’s Suffrage, publicado em 1907 na revista The Westminster Review, a feminista Helen Fraser fala sobre os “tipos de homem” e “tipos de mulher”. Dentro disso, ela lista: “homens masculinos”, “homens femininos” e “homens pouco sexuais”; e “mulheres masculinas”, “mulheres femininas” e “mulheres assexuais”. Repare como é curioso o fato de que ela isenta os homens da possibilidade de serem assexuais (no sentido de não sexuais) ao se pautar num discurso do homem como predatório.

Nesse texto, Fraser diz que “a mulher assexual deseja banir toda a beleza sexual que ela não sente e entende da vida”. Além disso, expressa diversas vezes sua opinião de que a “mulher masculina”, apoiada pela “mulher assexual”, tende a dominar a mulher feminina em uma tentativa de se assimilar ao homem por “negar” sua feminilidade.

Em 1917, o autor Correa Moylan Walsh publicou um livro entitulado Feminism ,no qual ele critica o feminismo através da sua opinião de que mulheres lésbicas e assexuais seriam as responsáveis pela destruição do movimento feminista e pelo declínio da humanidade:

“Parece ser uma lei do progresso que o avanço da civilização tende a produzir mulheres assexuais – fêmeas Urnings, tal como machos do mesmo tipo. Como os velhos costumes também obrigam esses a casarem e reproduzir sua espécie, seus números aumentam até os costumes antigos se quebrarem. Depois, a abertura de profissões de homem para mulheres e a liberação das mulheres de seus deveres atuam como válvula de segurança. As mulheres assexuais agem como ‘homens assexuados’, entram em profissões masculinas, se sustentam, não casam e, em todo caso, não geram nenhuma criança, e – ambos, elas e seus similares machos, que igualmente se abstém do casamento – extinguem-se. Então, com o campo limpo de tais criaturas, as mulheres restantes, produzidas de mulheres e pais que tiveram instintos sexuais normais de homens e mulheres, serão elas próprias e por si mesmas se retirarão da competição com os homens, que, por sua vez, serão viris, e o mundo continuará em seu curso usual.” (Walsh, p.371, 1917)

Grifei especificamente o termo “Urnings” e não o traduzi pois, por mais que possa ser diretamente traduzido para “homossexual”, no momento histórico em que o livro foi escrito o termo era usado de forma generalista, similar ao termo queer (que surge posteriormente). Inclusive é interessante observar que, mesmo naquela época, pessoas assexuais já eram incluídas dentro do que hoje conhecemos como queer

Neste outro trecho o autor ainda utiliza da mesma linha argumentativa, porém, com um discurso extremamente eugenista:

“O feminismo, iniciado entre assexuais, está se espalhando para aqueles com instintos sexuais normais, que, numa falsa imitação dos outros, reprimem eles. Os homens viris e mulheres femininas das classes e raças superiores ou líderes vão, da mesma forma, ser afetados pela mania anti-gravidez, e sua progênie vai, também, ser extinta, deixando o mundo nas mãos de classes ou raças inferiores. O declínio da civilização vai ser então alcançado e o curso usual das coisas deve começar novamente de um plano inferior.” (Walsh, p.372, 1917)

             Na imagem: páginas 371 e 372 do texto original em inglês.

Iniciado no século XIX, em 1880, o Movimento Spinster, que era um híbrido entre o movimento de pureza social e o movimento feminista, durou até os anos 1930. Já ouviu falar nesse termo? Spinster se refere a mulheres em idade acima da média normativa de casamento da época que ainda estavam solteiras. A pesquisadora Tone Hellesund aponta que é possível que essas mulheres fossem assexuais, lésbicas, bissexuais e/ou transgênero, por conta das ideologias defendidas pelo movimento e da forma com que guiavam suas vidas. 

”[…] Spinsters eram vistas como queer, não apenas porque não eram mães ou esposas, mas sim porque elas queriam ir a esfera pública e quebrar as fronteiras de gênero entre o público e privado.” – (Hellesund, 2008) 

Além de Hellesund, a cientista política Sheila Jeffreys publicou um livro sobre esse movimento, chamado The Spinster and Her Enemies (As Spinster e Seus Inimigos), que trata justamente dessa interseção entre o movimento de pureza social e o movimento feminista, inserindo as orientações sexuais no movimento, incluindo a assexualidade.

The Spinster and Her Enemies - Wikipedia

Agora, vamos até 1968: naquele ano, uma organização feminista chamada Cell 16 foi quem inspirou o surgimento de movimentos feministas separatistas lésbicos. Inclusive, o grupo publicou um livro chamado No More Fun and Games: a Journal of Female Liberation, no qual há um texto entitulado Asexuality, em que a autora define a assexualidade como algo diferente do celibato. 

Assim como surgiram movimentos exclusivos de feministas lésbicas, posteriormente, surgiu também um movimento de feministas assexuais. Foi em 1972 que o Manifesto Assexual, escrito pela feminista radical Lisa Orlando, foi publicado no New York Radical Feminists.

“Escolhemos o termo “assexual” para nos descrevermos porque tanto  “celibatário” quanto “antissexual” possuem conotações que gostaríamos de evitar: a primeira implica uma ideia de sacrifício para algum bem maior, a segunda, que sexualidade é algo degradante ou inerentemente ruim de alguma forma.  “Assexual” como nos referimos, não significa “sem sexo”, mas “não relacionar-se sexualmente a ninguém”.  Isso, é claro, não exclui a masturbação, mas implica que caso uma pessoa possua sentimentos sexuais ela não necessitaria de outra pessoa para essa expressão.  Assexualidade é, simplesmente, a sexualidade autossuficiente.”

* Tradução feita por Siggy. Leia o manifesto completo em português.

Acho importante frisar que, mesmo que Lisa negue o uso do termo “celibatário”, a definição dada por ela para assexualidade é bem semelhante: “não relacionar-se sexualmente a ninguém”. A assexualidade citada nesse manifesto se refere a uma “assexualidade política” – uma prática celibatária para fins de resistência política, sem relação com o conceito de assexualidade como orientação sexual.

Apesar disso, esse movimento foi importante para a trajetória da comunidade assexual. Afinal, essas feministas criticavam ativamente toda uma questão da alossexualidade (termo que designa o oposto da assexualidade) como algo compulsório e, de forma geral, a obrigatoriedade de sexo dentro de relacionamentos. Elas se levantavam ativamente contra o que, hoje, alguns pesquisadores nomearam como “sexonormatividade” ou “alonorma”, e que impactam diretamente na vida de pessoas assexuais.

Assexualidade na Ciência

Em 1869, o jornalista Karl-Maria Kertbeny apresentou oficialmente ao mundo ocidental os conceitos de homossexualidade e heterossexualidade, influenciando o surgimento de estudos sobre sexualidade dentro da sexologia.  

Kertbeny também utilizava o termo “monossexuais” para se referir a pessoas que apenas se masturbavam, sem se envolver em relacionamentos sexuais com outra pessoa. Após isso, 7 anos depois, o sexólogo alemão Magnus Hirschfeld publicou um panfleto sobre sexualidades chamado Sappho und Sokrates. Ele é considerado o responsável pela primeira menção conceitual relacionada à assexualidade na literatura, pois, em seu panfleto, ele foi além dos conceitos de sentir desejo por alguém do “mesmo sexo” ou do “sexo oposto” e apresenta a ideia de “anesthesia sexualis” (anestesia sexual).

“Não há nenhuma unificação para a personalidade, a qualidade e a quantidade de desejo sexual. Existem indivíduos que não tem nenhum desejo sexual (anesthesia sexualis), e até indivíduos cuja mera existência está centrada em sua sexualidade (calor [como animais que estão no cio], bestialidade, hiperestesia sexualis).” 

* Traduzido da versão em inglês publicada por tommy92 na AVEN

Ah, é importante reforçar que, naquela época, se utilizavam os termos desejo e atração como sinônimos e que, atualmente, já se sabe que são definições diferentes.

Posteriormente, em 1924, o termo “anesthesia sexualis” volta a ser utilizado pelo psiquiatra Krafft-Ebing em Psychopathia Sexualis, no entanto, como resultado de um distúrbio cerebral e degeneração mental. 

Ainda no século XIX, em 1897, a reformista sexual alemã Emma Trosse cunhou um novo termo para definir pessoas que não sentiam desejo sexual. Em seu trabalho Ein Weib? Psychologisch-biographische: Studie über eine Konträrsexuelle (Uma mulher? Estudo psicológico-biográfico de uma contra-sexual), ela utiliza o termo “Sinnlichkeitslosigkeit”, que pode ser traduzido como “Asensualidade”. Inclusive, ela mesma confessa se identificar como integrante dessa categoria.

Hoje em dia, asensualidade é utilizado com outro sentido, mais relacionado à atração sensorial. Ou seja, desejo por ter contato físico, não necessariamente de cunho sexual, com outra pessoa específica.

Em 1940 é lançado, por Clifford Allen, um livro chamado The Sexual perversions and Abnormalities: A Study in the Psychology of Paraphilia”, no qual ele coloca a assexualidade como uma “substituição de uma preferência sexual anormal inibida”, se referindo à homossexualidade. Ele propõe também um tratamento, que ele mesmo, no texto, admite ter riscos e desvantagens. Essa é considerada a primeira menção do termo “assexualidade” dentro da literatura científica.

Quase uma década depois, em 1949, ele lançou uma nova versão desse livro, no qual colocou a assexualidade como um dos quatro tipos de “transtorno de travestismo”.

“A ideia de assexualidade, é claro, é quando o paciente não é possuído por nenhuma sexualidade definida de forma forte, então veste indiscriminadamente roupas de homem e de mulher.” (Página 150)

Que bom que as coisas evoluem. Concebida por Alfred Kinsey, a Escala Kinsey vem para marcar a história da ciência, sendo referência até hoje: ela surgiu originalmente para avaliar o comportamento sexual de pessoas em um espectro dividido entre 3 grupos (heterossexual, bissexual e homossexual). 

O grupo referente à bissexualidade, porém, era definido por “não ter forte preferencia entre os gêneros”, o que incluía assexuais dentro dessa definição, junto com quaisquer outras identidades monodissentes (que não pertencem ao dualismo heterossexual/homossexual). Inclusive, não é de se surpreender que, anos depois, as comunidades bissexual e assexual tenham suas lutas e pautas quase como uma unidade. 

Posteriormente, a Escala Kinsey passou a incluir a categoria “X” para englobar pessoas que não apresentavam qualquer comportamento sexual. Em 1948, foi utilizada dessa forma em uma pesquisa que apontou que 1,5% dos homens adultos entravam nessa categoria e, em 1953, foi feito outro estudo que incluía mulheres, e apontou que 19% das mulheres entravam na categoria “X”.

Faço aqui um adendo de que essa escala mede o desejo por contato sexual com um indivíduo de determinado gênero, o que significa que quem está na categoria X não necessariamente é assexual. Qualquer pessoa que simplesmente não se engaje em práticas sexuais poderia cair na categoria. No entanto, essa escala é popular dentro da comunidade Ace até hoje, e é fácil entender o porquê: geralmente, quem ainda está se descobrindo quando busca sobre “falta de atração sexual” no Google, sempre se depara com o teste da Escala Kinsey. E, de certa forma, ela já ajudou muitas pessoas a minimamente não se sentirem “anormais”, já que é reconhecida cientificamente. 

A primeira vez que a assexualidade foi realmente incluída em um estudo que usava a Escala Kinsey foi em 1979, no trabalho de Michael D. Storms. Depois disso, outros livros, como o The Mismeasure of Desire: The Science, Theory, and Ethics of Sexual Orientation e o Bisexuality: A Critical Reader, citaram diretamente a assexualidade na escala, e não apenas o “grupo X”.

O primeiro trabalho acadêmico que tratou integralmente da assexualidade foi o artigo “Asexual and Autoerotic Women: Two Invisible Groups” (Mulheres Assexuais e Autoeróticas: Dois Grupos Invisíveis), de Myra Johnson, publicado no livro The Sexually Oppressed (Os Sexualmente Oprimidos), em 1977. Ela descreveu a assexualidade como falta completa de desejo sexual, diferenciando de pessoas que experienciavam desejo sexual, mas não tinham vontade de saciar esse desejo com outros, descritos como “autoeróticos”. O foco de seu trabalho eram problemas experienciados por mulheres assexuais, que ela considerou terem sido ignoradas pela revolução sexual e movimentos feministas.

Apesar do trabalho de Myra Johnson ser o primeiro artigo centrado na assexualidade, o primeiro estudo que conteve dados empíricos sobre assexuais foi o Mental Health Implications of Sexual Orientation (Implicações da Orientação Sexual na Saúde Mental), de Paula Nurius. O estudo utilizou uma variante da Escala Kinsey e observou a saúde mental de 689 participantes em relação ao comportamento sexual ou desejo pelo mesmo.

Depois de todo esse contexto histórico, chegamos ao pesquisador mais famoso dentro do tema da assexualidade: o psicólogo Anthony F. Bogaert. Em 1994, ele conduziu seu primeiro estudo sobre o tema e concluiu que, na época, 1 em cada 100 pessoas se identificavam como assexuais. Uma década depois, ele fez um novo estudo, publicado também no Journal of Sex Research, que indicou que 1% de uma amostra de 18.000 pessoas britânicas investigadas diziam não sentir atração sexual. Esse dado, por mais desatualizado que esteja, ainda é bastante divulgado até hoje por sua repercussão na mídia (e impressiona mesmo, não é?). 

Somente naquele ano, a revista New Scientist dedicou uma edição à assexualidade em resposta ao trabalho de Bogaert, e o canal Discovery dedicou um episódio da série The Sex Files para a assexualidade.

Apesar da Escala Kinsey e dos trabalhos de Bogaert serem muito importantes para a história da assexualidade, o trabalho que realmente é aclamado pela comunidade assexual foi o artigo publicado por Zoe O’Reilly em 1997, na StarNet Dispatches Webzine, My life as an amoeba (Minha vida de ameba), já que foi em sua seção de comentários que surgiu a primeira “comunidade assexual online”. 

O trabalho de O’Reilly teve todo esse impacto não só por isso, mas pelo fato de a  própria autora ser assexual e tê-lo escrito  em primeira pessoa. Isso naturalmente gerou uma enorme identificação entre leitores, que não imaginavam que poderiam ser assexuais ou que, sequer, existisse a assexualidade. 

Pode-se até dizer que Zoe O’Reilly foi a primeira pessoa a se assumir assexual na internet, não é? 

Assexualidade como Identidade Queer e parte da comunidade LGBTQIA+

Carl Schlegel foi um dos primeiros ativistas gays da modernidade nos EUA. Logo no comecinho do século XX, ele incluiu a assexualidade em um de seus discursos, pedindo pela igualdade de direitos para pessoas queer.

“Deixe as mesmas leis para todos os estágios intermediários da vida sexual: os homossexuais, heterossexuais, bissexuais, assexuais, serem legais, assim como já é a existência dos heterossexuais.” (Schlegel, 1907)

Já em meados deste século, nos anos 1950, movimentações queer na mídia se tornaram mais frequentes, e as menções à assexualidade dentro do movimento também. Em 1952, a revista Transvestia, escrita por pessoas trans para a comunidade trans, citou a assexualidade ao falar sobre a sexualidade de pessoas trans, dizendo que, enquanto muitas pessoas trans são heterossexuais, algumas também podem ser assexuais. 

Mais tarde, em 1965, a mesma revista publicou uma descrição do que pode ser considerada a primeira menção da assexualidade como um espectro, chamando de “A-sexual Range”. 

Já em outubro de 1970, outro jornal de pessoas trans, o Trans Liberation Newspaper (Jornal de Libertação Trans), incluiu a assexualidade em seu discurso: 

“O Trans Lib inclui travestis, transsexuais e hemafroditas [atualmente o termo usado é interssexuais] de qualquer manifestação sexual e de todos os sexos – heterossexual, homossexual, bissexual e assexual.”

Ainda nessa década, o jornal The Village Voice acabou levantando discussões e curiosidade sobre a assexualidade como identidade de forma meramente acidental. Em 1971, o jornal publicou uma paródia chamada Asexuals Have Problems Too!” (Assexuais têm problemas também!), porém, entre as cartas de leitores enviadas para publicação no jornal, alguns leitores apresentaram experiências reais. 

Em 1973, foi divulgada na revista Off our Backs (edição de fevereiro/março) uma foto que era para ter saído no artigo Your Own Label ,de Frances Chapman, da edição anterior. No artigo, Chapman descrevia a assexualidade como: 

“Uma orientação que diz respeito a um parceiro que não vê sexo como essencial, e sexo como não essencial para satisfazer um relacionamento.” 

A tal foto, que foi colocada na edição errada, era de um evento de ativistas da Barnard College, no qual estava incluso o termo “assexual” em um quadro que defendia a “escolha [de] seu próprio rótulo”. 

Na imagem: “Ao se registrar para a conferência, toda mulher foi convidada a escolher um rótulo e decidir como ela queria ser identificada pelo resto do dia: Hetero, Lésbica, Gay, Butch, Femme, Assexual, Anti-sexual, ?, outro, etc. Algumas eram tão antirrótulos que se recusaram até mesmo a usar o rótulo ‘antirrótulo’!”

 Pouco depois dessa época, se iniciou o fenômeno dos zines (autopublicações de escritores e artistas independentes), e muitos dos zines queer faziam referências à assexualidade. Os zines sempre foram uma importante forma de dar voz aos grupos marginalizados e, infelizmente, por não serem registrados oficialmente, muitos acabaram se perdendo com o tempo. Porém, existem pessoas que pesquisam e resgatam esses zines, como a pesquisadora e fundadora do Ace Zine Archive da Biblioteca Pública de Brooklyn, Olivia Montoya, que diz que os zines foram “o fóssil dessa comunidade”, estando presentes menções à assexualidade desde os anos 1970.

Em 1973, uma zine lésbica chamada Lavender Woman fez a seguinte citação em uma de suas edições:

“Eu quero que nós afrouxemos nossa definição de lesbianismo para que bissexuais, assexuais e recém-chegados possam ser aceitos em comunidades lésbicas sem ter que se provar dignos de confiança na cama ou em qualquer outro sentido.”

Montoya também aponta em suas pesquisas que já conta com mais de 100 zines em seu catálogo. Nessas leituras, identificou que, nos anos 1980 e 1990, muitos zines punk que entrevistaram seus leitores construíram demografias assexuais, como nos zines riot grrrl. Assim, muitas pessoas assexuais começaram a explorar suas identidades através dos zines, como, por exemplo, a editora da zine Prude, Lauren Jade Martin; em uma edição de 1996, ela abriu um debate sobre a possibilidade de a assexualidade ser uma identidade para si.

Quando entrevistada em 2019 pelo Them., Lauren Jade Martin disse que “[Zines] eram espaços de explorar e descobrir coisas, era a era da exploração e de usar mídia DIY (Do It Yourself) em busca de encontrar uma comunidade” e que a assexualidade era incluída na cultura de zines queer. Ela também comentou que várias outras identidades, como a demissexualidade e a arromanticidade, que já eram citadas em zines na época, ainda não possuem muita visibilidade.

Apesar dessas menções à assexualidade em artigos, discursos, jornais e zines, a assexualidade se mostrou presente na comunidade LGBT+ no século XX em uma luta de solidariedade com a bissexualidade. Até hoje as duas comunidades são bastante unidas. Um exemplo disso, aqui, no Brasil é o Coletivo AbrAce: o primeiro coletivo assexual brasileiro, em parceria ativa com o Canal das Bee (no YouTube), que luta pela visibilidade bissexual. 

ArtStation - Queer Community Solidarity, Rowan Hampton
Arte de Rowan Hampton

Essa “Solidariedade Bi-Ace” se dá pois, com o crescimento dos movimentos de libertação gay no início do século XX, elevou-se uma demanda pela inclusão de pessoas que fugiam da homossexualidade e heterossexualidade nos debates acerca de sexualidades. Essas pessoas levantavam a máxima “not straight, not gay” (não hétero, não gay), abarcando junto nessa definição todas as multissexualidades (bissexualidade, pansexualidade e polissexualidade), assim como a assexualidade.

Mesmo em tempos anteriores, como já foi mencionado no texto, a assexualidade era frequentemente colocada sob a mesma definição e/ou categoria que a bissexualidade em pesquisas, livros e artigos. A própria Escala Kinsey originalmente colocava ambas na mesma área entre a homossexualidade e a heterossexualidade. E, aí, tudo isso direcionou ambas as comunidades a estarem lado a lado em suas lutas.

“Muitos respondentes bissexuais descreveram bissexualidade como uma potencial ou como uma essencial qualidade que muitas pessoas possuem, mas que apenas algumas pessoas expressam através de sentimentos de atração ou comportamento sexual. De acordo com essa definição, pessoas podem ser – e são – bissexuais sem nunca experienciar atração por um ou outro sexo, e sem nunca ter relações sexuais com um ou outro sexo.” – Bisexuality and the Challenge to Lesbian Politics (Paula Rust, 1995)

Foi 10 anos após o levante de Stonewall, iniciado por mulheres trans nos anos 1960, que a definição de bissexual deixou de ser uma espécie de “termo guarda-chuva” para definir especificamente pessoas atraídas por multiplos gêneros. Antes, bissexual era esse termo que abarcava todas as sexualidades fora do dualismo hetero/homossexual, porém, hoje se usa “multissexuais” para se referir a bissexuais, pansexuais e polissexuais como conjunto e, “monodissentes”, para se referir a bi, pan, poli e ace como conjunto. Portanto, bissexualidade não é mais um termo generalista e não deve ser usado como tal.

Ainda nessa época, o termo “gay” também era uma espécie de termo guarda-chuva que abarcava todas as minorias sexuais e de gênero. Porém, como muitas lésbicas se sentiam excluídas dentro do movimento, em torno dos anos 1980 começou a ser feita uma separação mais evidente entre a luta de gays e de lésbicas. Diante disso, pessoas trans e bissexuais também fortaleceram suas lutas de forma isolada ao longo dos anos 1980 e 1990. Posteriormente, em meados dessa última década e início dos anos 2000, as identidades que antes estavam aglutinadas à bissexualidade começaram a se estabelecer de forma mais forte como comunidades isoladas, incluindo a assexualidade. 

Estruturação da Assexualidade como comunidade e a era da internet

Por fim, chegamos na assexualidade como comunidade dentro das definições que conhecemos hoje. Após o artigo “My Life As An Amoeba” de Zoe O’Reilly servir como ponto de partida para o primeiro agrupamento e debate popular sobre assexualidade na internet, foi fundado em 2000 o primeiro grupo assexual da internet. O Haven for the Human Amoeba (HHA) foi um grupo criado no Yahoo após o sucesso do artigo de Zoe (aliás, o nome do grupo foi inspirado no nome do artigo). Assim como o HHA surgiu a partir da seção de comentários do My Life As An Amoeba, em 2001 surgiu a Asexual Visibility and Education Network (AVEN) por meio da demanda por um site mais estruturado por membros do HHA. Assim, a AVEN se tornou uma rede de educação e visibilidade assexual e, também, referência internacional sobre a assexualidade. Fundada pelo ativista David Jay, atualmente abarca em seus fóruns a maior comunidade assexual da internet e é responsável pela organização de diversos eventos de grande porte, como a UK Asexuality Conference (Conferência Assexual do Reino Unido).

AAW Interview – Yasmin Benoit, Asexuality Activist, Model, and Writer – The  AVEN Blog

Foi também dentro dos debates em fóruns da AVEN que nasceu e foi apresentada ao público em 2010 a bandeira do orgulho assexual, além de outros símbolos da assexualidade. Diferente de muitas bandeiras do orgulho, que foram criadas por uma ou um grupo seleto de pessoas, o sistema de fórum online da AVEN possibilitou que a bandeira Ace fosse criada coletivamente através de votações e discussões globais. 

Ainda nesse mesmo ano foi fundada por Sara Beth Brooks a Semana da Visibilidade Assexual, conhecida popularmente como Ace Week. A semana ocorre sempre na última semana de outubro e, inclusive, é graças a ela que esse texto está publicado aqui, no Recort.

Apesar disso, ainda não existe um “Dia Internacional da Assexualidade”. Algumas pessoas utilizam o último dia da Ace Week para celebrar a data, enquanto outras usam o dia 8 de maio, data comemorada por uma das páginas mais populares sobre a assexualidade, a Fuck Yeah Asexual (no entanto, essa data ainda é polêmica e anualmente debatida dentro da comunidade).

Em 2012, ocorreu a primeira Conferência Assexual Internacional durante a 2012 World Pride, em Londres, mostrando que cada vez mais as pessoas assexuais estavam se fortalecendo enquanto comunidade dentro e fora da internet, e trazendo ao mundo suas vivências, questões e demandas. Inclusive, mesmo que a homossexualidade tenha sido removida do DSM em 1973, foi apenas em 2013 que a assexualidade deixou de ser taxada como “Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo”, com uma mudança feita na quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), que, agora, inclui uma exceção nesse transtorno para que pessoas que se autoidentificam como assexuais não sejam diagnosticadas e tratadas erroneamente. 

Essa mudança só ocorreu pois, anos antes, em 2008, o ativista e criador da AVEN, David Jay, se encontrou com Mara Keisling, a diretora executiva do National Center for Transgender Equality, que sugeriu à comunidade assexual tentar entrar em contato com o comitê do DSM-V e discutir mudanças na categoria das desordens sexuais. A partir disso, Jay criou um grupo com outros usuários da AVEN para promover esse diálogo em busca de alterar a definição do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (HSDD). O resultado, claro, foi positivo.  

Apesar disso, no CID-10, uma referência internacional para a medicina na categorização de doenças, a assexualidade ainda se enquadra como Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, passível de ser tratada. E essa visão da assexualidade como patologia não se resume a manuais de categorização de doenças: algumas pesquisas de grande escala, como a National LGBT Survey do Reino Unido, feita em 2018, apontam dados alarmantes sobre oferta de terapia de reorientação sexual (vulgarmente chamada de “cura gay”), dentre outras informações. 

De acordo com a pesquisa, pessoas assexuais cisgênero (cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento) são as que se sentem menos confortáveis sendo LGBT e com mais resistência a se abrirem, mesmo com amigos, sobre isso (por medo de rejeição). Para piorar, elas também são as pessoas que receberam mais ofertas de terapia de reorientação sexual. No Brasil e em muitos países essa prática é crime, mesmo que exista na ilegalidade.

Outra questão muito séria enfrentada por pessoas assexuais é a medicalização. É bastante comum profissionais da saúde não terem informação ou conhecimento mínimo sobre a assexualidade e, por isso, encararem essa reduzida ou ausente atração sexual como doenças e transtornos. Não são poucas as pessoas que, antes de se descobrirem assexuais, chegaram a fazer tratamentos hormonais ou uso de outros remédios e terapias para tentar “se consertar” e se “normalizar”. 

Na própria UK Asexuality Conference foi debatida essa questão da medicalização desnecessária e de preconceito por parte de profissionais da saúde quando as pessoas mencionam ser assexuais. Isso é negativo não apenas pelo simples fato de que excesso de remédios causa danos à saúde, como também por criar medo e receio em consultas com médicos ou psicólogos.

Seja onde for, na internet ou no mundo físico, a assexualidade existe e sempre existiu com suas demandas e luta por inclusão, compreensão e, principalmente, aceitação. Ainda existe um longo caminho a ser trilhado, principalmente nesta era pautada na mídia e na visibilidade como maior instrumentos de reconhecimento e educação em larga escala. Mas só de saber que, hoje, você está aqui lendo sobre a nossa história, já é uma pequena, porém importante, vitória para a comunidade assexual! 

E às pessoas Ace lendo esse texto: Feliz Semana da Visibilidade Assexual! Você é visível, sua história é visível e o seu futuro também será. <3

AUTORIA: Lori Amethista (instagram: @L.Amethista)